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quarta-feira, 17 de março de 2010

Vinte Minutos no Inferno


Neste domingo eu passei por uma experiência que não desejo a ninguém, nunca: eu perdi meu filho. Pior do que perder seu filho é saber que você o perdeu dentro de casa, embaixo dos olhos, o que é ainda mais improvável.
Eu sei que você não está entendendo nada, então vou explicar.

Para quem ainda não sabe, eu mudei de um aPERtamento para uma casa. Estou morando na casa da minha mãe, que é bem grande. Isso nos trouxe algumas coisas boas, como a economia, a praticidade e claro, o espaço. E meu filho está aproveitando muito bem o espaço. Ele passa o dia no quintal, jogando bola e andando de bicicleta, coisas que eram proibidas dentro do apê.
Pois bem, no domingo pela manhã eu estava na sala, mexendo no computador, meu marido estava lá em cima no quarto dormindo e minha mãe, nos fundos, mexendo em alguma coisa na lavanderia. E o Vinícius? Ele estava andando de bicicleta no quintal.
Eu fui lá fora, falei com ele e entrei. Cerca de 20 minutos depois, meu avô chegou e perguntou por ele. Eu disse que estava no quintal ou lá atrás com a minha mãe. Nisso entra minha mãe, perguntando também por ele. Começa a saga: cadê o Vinícius? Tudo bem que uma casa é maior que um apartamento, mas vá lá, é só uma casa, não uma mansão, pelamor.
Eu saio no quintal e chamo por ele, olho embaixo do carro. Nada.
Entro em casa, olho embaixo do sofá. Nada.
Abro as gavetas da estante, arrasto sofás, chamo por ele. Nada.
Embaixo da mesa, embaixo da escada, dentro do banheiro, atrás da porta. Nada.
Comecei a ficar preocupada.
Abri todos os armários da cozinha, até o forno. Como não tinha nem sinal dele, subi para os quartos. Olho embaixo das camas, atrás das portas, dentro dos banheiros, enfim, repito o ritual. Nada.
Enfim, bateu o desespero.
Ainda de pijama, afinal, era 9h00 da manhã, saio na rua, com minha mãe e meu avô, para procurá-lo. Acostumados que estávamos com apartamento, a primeira coisa que nos vem à cabeça é: ele foi brincar na rua. Nesta hora a gente nem pensa em como ele abriu o portão sozinho.
Quando esta ficha cai você se desespera mais ainda: ele não abriu sozinho, ele não conseguiria! Alguém abriu para ele e o levou!
Nisso, minha mãe já está batendo de porta em porta aqui na rua, falando com os vizinhos, perguntando se o viram. O vizinho do lado, que estava na rua, afirma que não viu o Vinícius sair de casa. E eu, de pijama, estava indo de um lado para o outro na rua, chamando pelo nome dele.
Entro em casa e decido sair com o carro. Se alguém o levou, não deve estar longe. Abro o carro, olho dentro e nada. Só então eu lembro do meu marido dormindo. Ele não sabe de nada ainda.
Subo apavorada e o acordo assim: “Leandro, o Vinícius sumiu!”
Ele, óbvio, entre o acordar e o entender, fica assustado e desce na hora. Quando eu vou abrir o portão para tirar o carro, o Leandro abriu o carro. Ele não olhou como eu, ele abriu o porta-malas.
E lá estava o Vinícius, agachado. E quando viu o Leandro, disse: “pai, você me achou!”


Não posso descrever os sentimentos deste momento. Juro, me faltam palavras. Foi uma mistura de alívio com raiva. Antes de qualquer coisa eu fui pra rua, chamar minha mãe, que já estava lá na ponta, avisando outra vizinha. Depois, entrei no quintal, peguei o Vinícius pelo braço e, confesso, dei uns bons tapas na sua bunda sem fraldas. Eu queria que ele sentisse a dor que eu estava sentindo. Que ele entendesse a gravidade do que havia feito. Irracional, claro. Mas, na hora, minha única opção. Depois de ficar louca com ele, eu o segurei forte, mas tão forte e abracei. E aí, não deu, comecei a chorar. Nisso entra minha mãe em casa, aos prantos. Ela olha para ele diz:
- “Vou matar você!” E logo depois o abraça e fica chorando.

Então, depois, mais calmos, perguntei:
- Filho, você não ouviu a mamãe te chamar?
- Ouvi.
- E porque você não respondeu?
- Por que eu tava escondido, mãe!


E só então eu entendi: quando ele estava no quintal, ele me viu ir abrir o carro para pegar a bolsa. Ele viu que eu não fechei. E, como temos um modelo tipo wagon, por dentro do carro mesmo é possível ir para o porta-malas. E foi o que ele fez.
Se este processo todo durou vinte minutos, foi muito. Mas foram os mais longos da minha vida. Nestas horas passa um filme na sua cabeça e você fica lembrando de todas aquelas matérias sobre desaparecidos que já viu na vida. Difícil descrever a sensação do desespero. É como se o seu chão estivesse ruindo. No domingo eu nem bem tinha acordado e já tinha vivido meus vinte minutos no inferno. Que eu sinceramente não desejo nem para os inimigos.


Postado por Denise Lugli

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Das perdas.


Esses primeiros dias do ano não estão sendo nada fáceis. A alegria que contagiou a todos, estancou pra mim logo na segunda semana.

Explico: a minha avó adoeceu, ficou quase 20 dias no hospital e faleceu no último dia 29.

Perdi meu brilho, minha alegria. Há um vazio imenso dentro de mim.

Era ela quem cuidava de mim, zelando mais do que minha própria mãe. Ela me ligava quase todos os dias para saber se estava tudo bem, para bater papo, perguntar do Lucca, do Lilo, do Zé. Ela era a minha maior fã, minha defensora, minha amiga.

Tudo o que eu sei sobre o amor aprendi com ela.

E agora é como se eu tivesse ficado sozinha na sala de aula da vida, exposta aos olhares curiosos das pessoas que me obrigam a ter forças, ter maturidade, agir de forma correta.

E eu só sinto saudades. Muitas saudades.

Ontem, por exemplo, foi um dos dias mais tristes desse processo. Porque era aos domingos que eu ia por o papo em dia, tomar café, beliscar guloseimas e receber carinho. E caso eu não aparecesse por lá, certamente teria uma ligação perguntando sobre meu final de semana.

Ontem não teve a ligação. Só o silêncio.

E hoje eu amanheci vazia, e ao mesmo tempo lotada de coisas para contar para ela.

Não tenho dúvidas que a amo muito mais do que a minha própria mãe.

Por isso sofro.

Por isso perdi o brilho.

Não estava preparada para uma perda como essa. Juro, não sabia o que era perder uma "mãe".

Talvez a cena mais dolorida, e que ainda martela na minha cabeça, foi o momento em que seu caixão baixou à sepultura. Ali tive a certeza do fim do nosso vínculo físico.

Não haverá mais carinhos, nem cafunés, nem o colo, nem as mãos pequenas que seguravam as minhas. O cheiro do seu peito dança em minha memória, assim como cada detalhe do seu rosto.

Ver o caixão ser coberto pela terra e, logo depois, pela grama, foi demais doloroso.

Chorei tanto quanto choro agora, nesse momento.

Eu sei que a vida continua, que é preciso olhar pra frente, que tenho que ter forças para cuidar de mim, do meu filho, da minha vida. Mas é como se eu tivesse perdido meu mais precioso aliado na batalha diária. Me sinto na linha de frente, frágil como um alvo fácil.

Ainda na dor da perda da minha avó, menos de uma semana depois, recebo outra notícia de falecimento.

Dessa vez de uma pessoa que já foi até personagem de um dos meus textos (o Qual é a sua causa
?, publicado em outubro do ano passado). Essa amiga querida nos deixou no alto dos seus 27 anos, levada por um câncer implacável.


Outra paulada...

E logo ela, que tanto queria pertencer a esse grupo, e brindar com Lambrusco a vida e a alegria.

Não deu tempo.

Saber que a Cibele não vai mais me chamar de "Minha Florrrrr", com aquele erre arrastado, e contar suas histórias, e dar suas risadas porque compramos vestidos e sapatos iguais, assim, sem querer, também me dói. Uma amiga como ela vai fazer falta pra sempre. Uma lição de vida como a que ela me passou ficará guardada pra sempre também.

As perdas desse ano valeram por todas as outras da minha vida.

E os danos... Ah! esses ficarão para o resto da minha vida.



Postado por Andréa, que ainda não conseguiu escrever tudo aquilo que está sentindo porque simplesmente a tristeza ainda a impede.